Cosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos, da autoria de Frank Tipler
Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Revisão científica de José Félix Costa
Recensão de C.E., na Gazeta de Física, vol. 26, fasc. 4:
«Foi recentemente publicado em Portugal, no prelo da Bizâncio, um livro com um título curioso - “A Física da Imortalidade” - e com um subtítulo ainda mais curioso - “Cosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos”. Curiosíssimo é o facto de o autor, Frank Tipler, ser um reputado físico-matemático de uma bem conhecida universidade norte-americana, a Tulane University, situada na Saint Charles Avenue, na elegante “uptown” de New Orleans, Louisiana.Tipler trabalha no Gibson Hall, a mansão onde foram rodadas algumas cenas do filme “Dossier Pelicano” (com Julia Roberts), sendo a relatividade geral a sua especialidade. É a primeira vez desde o “cisma” ocorrido com Galileu por causa de Copérnico (uma questão cosmológica…) que a física e a teologia aparecem tão intimamente unidas. Para quem ler o prefácio, não restam dúvidas sobre as intenções do autor: “…A teologia é um ramo da física,… os físicos podem inferir a existência de Deus através do cálculo e a probabilidade da ressurreição dos mortos para a vida eterna exactamente da mesma forma como os físicos calculam as propriedades do electrão…” E logo a seguir, como que respondendo a quem tenha dúvidas, o autor acrescenta: “Estou a falar muito seriamente, mas estou tão surpreso como o leitor. Quando iniciei a minha carreira como investigador, há cerca de 20 anos [o livro original é de 1994], era um ateu convicto. Nunca imaginei nos meus sonhos mais loucos, que um dia viria a escrever um livro com o objectivo de mostrar que as afirmações da teologia judaico-cristã são de facto verdadeiras, que elas são deduções directas das leis da física como as entendemos agora. Fui obrigado a chegar a estas con-clusões pela lógica inexorável do meu ramo de especialidade, a física”. A mensagem é, sem dúvida, surpreendente para quem está habituado a separar as águas entre ciência e religião. Aqui a religião é simplesmente “engolida” pela ciência, como se a ciência fosse tudo e tudo pudesse. Com franqueza, acho o livro bastante interessante, pelo que o recomendo, mas a pretensão do autor parece-me francamente exagerada. Não penso que as quase quinhentas páginas consigam convencer quem não está já convencido da “ressurreição dos mortos”. Acresce que os argumentos nem sempre são fáceis de seguir, recorrendo Tipler, além do texto principal, a um largo “Apêndice para Cientistas”, com mais de cem páginas recheadas de equações. Mas de que ciência trata afinal o livro? Tipler usa a doutrina da relatividade geral, que bem conhece, para analisar um modelo cosmológico, que talvez tenha caído um pouco em desuso nos últimos tempos (observações de supernovas indicam que o universo está em expansão acelerada), no qual o universo se contrai para no final cair num ponto, o “ponto ómega”. Tipler parece motivado pelas teses teleológicas do padre Teilhard de Chardin. É nesse hipotético “ponto ómega” que todo o mundo e toda a humanidade se virá a reunir - a tal “ressurreição dos mortos” que serve de isco ao leitor no subtítulo. Seria o “big bang” (o “ponto alfa”) ao contrário. Contudo, ao contrário do padre Chardin, para Tipler a existência do “ponto ómega” está associada a previsões da física, que se podem verificar experimentalmente. Tipler chega a prever um valor para a massa do bosão de Higgs, a partícula ainda não descoberta que constitui o “Santo Graal” da física das altas energias. No ano de publicação do livro, Tipler, compreendendo como era difícil publicar essa sua previsão num artigo “normal” de uma revista científica, aproveitou uma sua recensão de um outro livro na “Nature” para a enunciar, ainda que sem prova. Escreveu: “Se Deus existe então a massa do quark top tem de ser 185 mais ou menos 20 GeV e se Deus é humano então a massa do bosão de Higgs tem de ser 220 mais ou menos 20 GeV”. Com afirmações destas não admira que o título da recensão - “Deus nas equações” - tenha sido censurado pelos editores da revista… Como mostra este episódio, Tipler possui, para além de uma grande bagagem científico-cultural, um aguçado sentido de humor. Fala muito, sobre qualquer assunto. Conta bastantes histórias. Tem, por vezes, imensa graça. Tem graça, por exemplo, quando dedica o livro aos avós da sua esposa, que é polaca, escrevendo “todos os três, cidadãos de Torun, Polónia, local de nascimento de Copérnico, morreram esperando a ressurreição universal, esperança que, mostrarei neste livro, se cumprirá no final dos tempos.” Algumas histórias de Tipler são famosas no mundo académico da Física. Uma das histórias que circulam, não sei se apócrifa, relata que numa “book review” de “Física da Imortalidade” apareceu uma gralha que transformou “Física da Imortalidade” em “Física da Imoralidade” (em inglês, passou de “Immortality” para “Immorality”, o que é só a queda de uma letra). Mas a piada não acaba aqui. Não é que Tipler, ao ver a gralha, comentou: “Ora aqui está um excelente título para o meu próximo livro”. Talvez estivesse a imaginar um subtítulo com a palavra “sexo”… O volume aqui em questão é o segundo livro do autor. O primeiro foi um erudito trabalho de colaboração com o astrónomo inglês (e divulgador científico) John Barrow, intitulado “The Anthropic Cosmological Principle” (não há tradução em português). O princípio antrópico oferece uma explicação da “máquina do mundo” não pelas suas causas, como é tradição em ciência, mas pelas suas finalidades. De acordo com o princípio antrópico, o mundo é como é porque, se não fosse assim, não estaríamos cá para o observar. O argumento é passível de muitas objecções… Como todos os autores, Tipler gosta de vendas: deve estar agora contente com esta edição em Portugal, tão contente quanto se mostrou quando a rede TV Globo de televisão lhe pediu uma entrevista para o “Fantástico”, um programa de grande audiência no Brasil. A edição chega-nos pelas mãos da editora Bizâncio, aparecendo integrada numa das poucas colecções de ciência que hoje se publicam. “A Física da Imortalidade” é o número 14 da colecção “A Máquina do Mundo”, que a Bizâncio confiou a José Félix Costa, matemático do Instituto Superior Técnico de Lisboa. Outros títulos dessa colecção que merecem leitura são “O Quarteto de Cambridge” de John Casti, “T. Rex e a Cratera da Destruição”, de Walter Alvarez e o recente “Ciência ou Vodu”, de Robert Park. A esta colecção, que está como as outras da Bizâncio sob a supervisão de Luís Alves, deseja-se o maior futuro. Se não chegar até ao “ponto ómega”, que chegue pelo menos o mais próximo possível dele. Isto no caso do “ponto ómega” existir.»
Para outras leituras, ver aqui.